“Sempre que venho ao Brasil, assisto à TV para ver como o país se
representa. Pela TV brasileira, nunca seria possível imaginar que sua
população é majoritariamente negra”. Esta observação, entre tantas
outras acerca dos desafios que ainda cabem à luta pela igualdade racial
no Brasil e no mundo, foi feita pela ativista estadunidense Angela
Davis, em conferência em Brasília na noite de 25 de julho, na 7ª edição
do Latinidades – Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha.
“Não posso falar com autoridade no Brasil, mas às vezes não é preciso
ser especialista para perceber que alguma coisa está errada se a cara
pública deste país, majoritariamente negro, é branca”, acrescentou.
Referência mundial na luta contra o racismo e autora
de vários livros e pesquisas na área, Angela Davis, hoje com 70 anos de
idade e mais de 40 dedicados à militância e à pesquisa da temática, fala
com a autoridade de quem tem uma vida dedicada ao tema. E acerta em
cheio. Para além da invisibilidade dos negros e negras na mídia
brasileira, o racismo midiático se evidencia pela própria negação do
racismo (recordemos o livro do diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali
Kamel, Não somos racistas, lançado em 2006) e pela afirmação de
estereótipos a partir do ponto de vista hegemônico, que colaboram para
reforçar uma atitude e um sentimento de auto-desvalorização nos negros e
negras, assim como o desinteresse dos veículos de comunicação por suas
causas e ações.
Como bem cita o pesquisador brasileiro Muniz Sodré, no livro Claros e
escuros: identidade, povo e mídia no Brasil, “a mídia funciona, no nível
macro, como um gênero discursivo capaz de catalisar expressões
políticas e institucionais sobre as relações inter-raciais, (...) que,
de uma maneira ou de outra, legitima a desigualdade social pela cor da
pele.” (SODRÉ, 1999, p.243). Ou seja, é no espaço midiático que ocorrem
grande parte das relações étnico-raciais brasileiras.
Mas, se este espaço é um dos principais reprodutores da lógica racista,
pode também servir para promover a igualdade racial num país plural como
o Brasil. Apesar de ainda haver muito por se construir até que a “cara
pública” do nosso país – sobretudo aquela que se apresenta na televisão
aberta – seja de fato a representação da nossa diversidade, há que se
considerar alguns aspectos positivos e mudanças neste sentido. E dois
exemplos recentes puderam ser vistos, em menos de 15 dias, na Rede
Globo. A emissora dispensou, em dois momentos de sua programação (o
programa Na Moral e a novela Geração Brasil), espaços significativos
para a abordagem do racismo. E, no que se refere à terminologia, por
exemplo, o assunto foi tratado sem eufemismos ou poréns, com este nome
mesmo: racismo.
No programa Na Moral do dia 17 de julho, artistas e estudiosos negros
falaram sobre o racismo na TV e suas experiências, a maioria dolorosas.
Entre eles estava o cantor Thiaguinho, as atrizes Taís Araújo e Zezé
Mota, o ator Aílton Graça e o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo.
Negros e negras falando sobre o racismo na TV. A única exceção foi o
diretor Daniel Filho, que estava lá porque, no final da década de 1960,
dirigiu a novela A Cabana do Pai Tomás, cujo protagonista era um escravo
negro vivido por um ator branco (Sérgio Cardoso), que pintava o corpo,
usava peruca e rolhas no nariz para compor o personagem. Daniel foi ao
programa explicar esta escolha absurda que, obviamente, gerou polêmica,
pois havia bons atores negros consagrados na época (a esposa de Pai
Tomás, inclusive, era a atriz negra Ruth de Souza).
Outro exemplo recente e que merece destaque foi a cena da novela Geração
Brasil, exibida ao final do capítulo do dia 22 de julho, exatamente
antes do início do Jornal Nacional. Foi uma cena longa (pouco mais de 12
minutos de duração), que teve como centro uma conversa entre o
personagem Brian Benson (vivido por Lázaro Ramos) e Matias (vivido pelo
jovem ator Danilo Santos Ferreira). A cena se passa em um reality show
chamado “Geração Nem-Nem” e trata do racismo
que o jovem Matias sofreu na infância, o que contribuiu
significativamente para que ele se tornasse mais um jovem nem-nem (nem
trabalha, nem estuda).
Nesse momento, a novela falou abertamente sobre o racismo sofrido por
crianças negras na infância, sendo qualificado nitidamente como
violência. No palco do programa de auditório que exibe a cena do reality
show, onde estão a namorada e os pais de Matias (ele negro, ela
branca), a mãe de Matias (a pedagoga Rita de Cássia), ao recebê-lo, pede
desculpas ao filho por não ter observado isso, apesar da sua profissão.
E a apresentadora, Pamela Parker-Marra (vivida pela atriz Cláudia
Abreu), apresenta estatísticas sobre a desmotivação escolar de crianças
negras, expondo o papel do racismo nesses índices e relacionando a
questão ao seu sucesso nos estudos.
É positivo perceber, em 2014, a luta pela igualdade racial nos meios de
comunicação, que vem sendo travada com mais intensidade a partir de
meados década de 90, dando retornos positivos. A visibilidade dada às
discussões sobre o racismo, sem a utilização de termos para “suavizar” a
expressão, e seu reconhecimento como violência pela principal emissora
do país não são pouca coisa. Isso nos inspira e nos faz sentir que a
luta é válida porque, como já disse o dramaturgo e poeta alemão Bertold
Brecht, "nada deve parecer impossível de mudar". Muito menos o racismo.
* Cecília Bizerra Sousa é jornalista negra, mestra em Comunicação
pela Universidade de Brasília (UnB), integrante do Coletivo Intervozes e
do Coletivo de Mulheres Negras Pretas Candangas.

Uma das perguntas “difíceis” que o candidato Aécio Neves terá que
responder durante a campanha eleitoral, é a seguinte: afinal de contas, a
organização da Copa do Mundo de 2014 é ou não é responsabilidade de
Dilma Rousseff?
Segundo o candidato a presidente Aécio Neves, as
obras da Copa só seriam responsabilidade da adversária petista se, como
ele previu, o evento tivesse sido um fiasco no quesito organização. Ao
ter sido um sucesso, o tucano agora diz que o mérito é “do povo”.
Aécio e seu partido não podem apagar o que disseram. A Folha de São Paulo
de 22 de fevereiro deste ano, por exemplo, reproduziu alegação do
senador tucano de que o governo Dilma era responsável pelos “atrasos nas
obras de mobilidade urbana para a Copa”.
Contudo, junho chegou
e, com ele, a Copa. Não houve fiasco. Muito pelo contrário: o Brasil e o
mundo se espantaram com a boa organização de um evento que, durante
anos, todos ouviram dizer que fracassaria devido à organização. Por
conta disso, Dilma subiu nas pesquisas.
Aécio não falou sozinho
sobre a responsabilidade de Dilma na organização da Copa. Por anos,
mídia e oposição, em conluio, responsabilizaram o governo federal pelo
que viesse a ocorrer durante o evento, em termos de organização.
Como foi dito anteriormente
nesta página, essa gente não respeita o povo; julga-o incapaz de pensar
e de sequer se lembrar de fatos recentíssimos. É uma aposta alta, como
se verá logo adiante.
Agora, Aécio e os órgãos de imprensa que o
apoiam tentam confundir a organização da Copa com o resultado devastador
que a Seleção brasileira obteve em campo. Capa do jornal O Estado de
São Paulo de 10 de julho último afirma, na caradura, que Dilma “tenta”
se “descolar” do “fracasso” da Seleção.
Como assim, “Dilma tenta se descolar”? Quer dizer que a presidente da
República está “colada” ao “fracasso” da Seleção? Ela, por acaso, é a
treinadora da equipe? Foi ela quem escolheu o treinador? Foi ela quem
escolheu a direção da CBF?
Matéria do mesmo Estadão
afirma, já no título, que “Tucanos avaliam que derrota na Copa anula
discurso de petista” – ou seja, de Dilma. Segundo o texto, “Comitê de
Aécio acredita que Dilma não poderá mais explorar Mundial” e quer que o
“Sucesso extracampo” do evento seja “atribuído ao povo”.
Vamos
esmiuçar a expressão “sucesso extracampo”. Significa, por óbvio, sucesso
fora do campo. Que sucesso existe “fora do campo”? A organização do
evento, claro.
Muito bem: então, pelo menos, Aécio e seu partido já admitem que a organização da Copa, que tanto criticaram, é um sucesso.
A
grande pergunta que precisa ser feita ao candidato tucano, portanto, é a
seguinte: como essa organização pode ser atribuída agora ao povo se até
há pouco o mesmo candidato e seu partido atribuíam ao governo?
A
péssima estratégia de Aécio foi comprada pela mídia tucana, que
aumentou a aposta. Nesta sexta-feira, outro jornal apoiador de Aécio (a
Folha) levou seu discurso torto à primeira página, em manchete
principal.
Aécio critica uso da Copa? Sim, critica. Refere-se à organização do
evento, pois Dilma tem dito que os pessimistas que previram “caos” agora
têm que aplaudir. Mas quando ele disse que haveria esse “caos”, não fez
“uso” da Copa?
Esse discurso duplo de Aécio é um suicídio
político, mas só se a campanha de Dilma expuser essa contradição.
Infelizmente, apesar de o ministro Gilberto Carvalho ter manifestado seu
repúdio à cara-de-pau do candidato tucano, não houve uma declaração
precisa sobre o que Aécio dizia antes e o que diz agora sobre a
organização da Copa.
Contudo, a campanha eleitoral está só começando e os fatos estão amplamente registrados.
É
óbvio que essa contradição do candidato tucano a presidente será
levantada. Como ele irá explicar que a organização da Copa era
responsabilidade de Dilma quando diziam que o evento fracassaria e
deixou de ser quando, segundo os tucanos, tornou-se um “sucesso”?
A
menos que a campanha de Dilma resolva colaborar com o adversário e
deixe de expor o discurso duplo de Aécio sobre a organização da Copa,
ele ficará em uma bela sinuca – não terá como responder à questão que
este Blog propõe.
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