Há 322 anos, em 20 de novembro de 1695, morria Zumbi dos
Palmares, encerrando mais de um século de resistência naquele que foi o maior
quilombo da história do Brasil. Ele morreu na guerra contra a escravidão, hoje
extinta, mas a luta contra a desigualdade ainda se faz necessária.
A partir dali, ao invés de esmorecer, foram formados milhares de novos
quilombos pelo país inteiro, muitos dos quais continuaram a existir após a
abolição. Hoje, segundo a Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura, há
perto de 1900 comunidades remanescentes no país inteiro.
A regularização fundiária desses remanescentes de quilombos é parte dessa luta.
Não que queríamos os negros lá, segregados em reservas próprias. Mas, os
quilombolas atuais são museus vivos, de enorme relevância por guardarem parcela
significativa da cultura trazida da África, que inclui, em muitos casos, a
propriedade e uso coletivo de terras.
E pra lembrar ao Brasil que brasileiros afrodescendentes são partes da nossa
sociedade, mas ainda padecem da falta de igualdade plena, verdadeira, não
apenas formal, no papel.
Palmares
O Quilombo de Palmares ficava na Serra da Barriga, então Pernambuco, distante
de áreas urbanas, a região de mais difícil acesso naquela Província.
Era uma área enorme, metade do que é hoje o Pernambuco, indo até as margens do
rio São Francisco, de topografia acidentada e uma mescla de mata fechada com
palmeirais (palmares) nativos nos topos dos morrotes. Hoje, boa parte do
território estaria em Alagoas, onde está a cidade de União dos Palmares.
Tudo começou com a revolta dos escravos de um engenho de açúcar que, armados
apenas com foices, chuços e paus atacaram e dominaram seus amos e feitores,
segundo conta o historiador Décio Freitas, em “Palmares – A Guerra dos
Escravos” (Editora Movimento, Porto Alegre-RS, 1973). E arremata:
“E assim, viram-se senhores do engenho que fora tanto tempo o instrumento da
sua opressão. Mas quedaram perplexos: que fazer da liberdade que haviam
conquistado?”
Corria o ano de 1.580 e já havia muitos exemplos de revoltas que foram
sufocadas, como seria também a deles. Se ficassem na usina, logo seriam
cercados por forças bem armadas. Se fugissem pra perto, logo seriam alcançados.
Daí, a decisão de andar semanas e semanas até a região dos Palmares. Mas, a
simples escolha do local denunciava que o território já havia sido percorrido
por alguns deles.
Ergueram, então, onze vilas, chamadas de mocambos, que começaram com cerca de
três mil pessoas e chegaram a ter 40 mil habitantes. Muitos foragidos de
prisões e senzalas da Bahia e de todo o nordeste foram se incorporando ao
empreendimento.
O chefe maior era eleito, como na maioria das comunidades africanas, e não
tinha poderes absolutos nem linhagem religiosa, num convívio baseado na
fraternidade e solidariedade, citando de novo Décio Freitas Ali, no mocambo
Cerca do Macaco, nasceu o menino Zumbi dos Palmares, em 1.655, que ainda
criança foi raptado e entregue a um missionário português, que o batizou com o
nome de Francisco e o educou.
Com idade de 20 anos, porém, ele voltou aos Palmares, à época sob a liderança
de seu tio Ganga Zumba, chefe que negociava um armistício com as autoridades da
Província, pois estas haviam aprisionado seus três filhos. Zumbi tomou a
dianteira e impediu o acordo, destacando-se como comandante militar, o que o
colocou na posição de líder maior do quilombo.
Entretanto, Ganga Zumba prosseguiu as negociações por sua própria conta, foi
pessoalmente a Recife, acompanhado de um séquito de 40 homens, e fechou um
acordo com o governador da Província, Aires de Souza e Castro. Assim, ele
deixou o quilombo e foi morar em umas terras cedidas pelo mandatário. E consta
que lá morreu, uns anos depois, envenenado.
Desde lá atrás, no início de tudo, os quilombolas de Palmaras já haviam
enfrentado incontáveis batalhas contra portugueses, holandeses e senhores de
engenhos. Usavam táticas de guerrilha e quase sempre saiam vitoriosos ou pelo
menos ilesos, pois ninguém ousava entrar nos redutos por eles dominados, na
tentativa de alcança-los.
Mas, eles enfrentavam sérios problemas, entre os quais o de poucas mulheres, o
que os forçava a descer a serra, como se dizia, pra raptar negras em senzalas,
plantações ou casas de fazendas. Isto, era feito com escaramuças e
violência, pois eles aproveitavam pra confiscar armas e alimentos.
O fato é que, agora, a fama de Zumbi se espalhava pelo país inteiro, como homem
capaz de muitas proezas, que não aceitava negociar com o poder colonial que os
escravizava e que, além do mais, tinha o corpo fechado, ninguém conseguiria
mata-lo. Pelo sim, pelo não, as histórias que corriam incomodavam as
autoridades e senhores de escravos.
Foi armada, então, em 1.687, uma grande ofensiva contra Palmares, tarefa
entregue ao bandeirante Domingos Jorge Velho, então já conhecido matador de
índios da Bahia ao Piauí, e senhor de fazendas em todo o nordeste. Ele tinha um
exército de 2.100 homens, dentre os quais 1.300 índios cooptados e uns 800
não-índios, inclusive negros.
Foram 7 anos de ofensivas que, aos poucos, foram solapando o quilombo pelas
beiradas, mocambo a mocambo, até o derradeiro ataque ao Macaco, iniciado em
março de 1.695. Delatado por um ex-comparsa, Zumbi foi apanhado no dia 20 de
novembro, morto e decapitado. Sua cabeça foi levada ao Recife, onde foi exposta
no lugar mais público da cidade, e ali ficou até se decompor.