Ficaram na memória dos seus alunos. Por
muitas razões. Algumas difíceis de verbalizar. Foram professores
atenciosos, preocupados. Disciplinadores e rigorosos. Lecionaram em
épocas muito diferentes. Em comum apenas o exemplo que deram.
O que faz um bom professor? Aos olhos dos alunos podem ser gestos
simples. Desses que não constam nas grelhas de observação. Ou são
reconhecidos anos mais tarde, já a escola ficou para trás. Em tempos
conturbados para educação, os professores reclamam mais atenção ao
trabalho que fazem dentro e fora da sala de aula, e que nem sempre é
visível, ou dificilmente conta para a avaliação.
Tendo na mira o
Dia Mundial do Professor, celebrado a 5 de outubro, o EDUCARE.PT
recolheu testemunhos marcantes sobre docentes que fizeram a diferença.
Esteve também à conversa com sociólogos na área da educação para
entender a evolução histórica da carreira docente, e perceber como se
revaloriza a profissão, sendo certo para os professores que nunca se
sentiram tão desvalorizados.
Apoiar os alunos Imagine-se,
sem muito esforço, porque a situação poderia bem ser real, que um
professor de Matemática se depara com uma aluna adolescente grávida, e
que passa horas a conversar com ela depois das aulas, para tentar
resolver o dilema de como contar aos pais. Almerindo Janela Afonso,
investigador na área das Ciências da Educação da Universidade do Minho,
serve-se deste exemplo para lamentar o modo como se estão a avaliar os
docentes. A moral da história é a de que “a avaliação de desempenho
daquele professor não tem em conta o que ele fez para apoiar a aluna”.
Não
é de hoje a discussão sobre a tentativa de quantificar tudo o que é
feito nas escolas. Seja o trabalho do professor seja o sucesso ou
insucesso dos alunos. Avaliam-se os docentes pelas notas dos alunos. Os
alunos pelas notas dos exames. As escolas hierarquizam-se nos rankings.
“Com o peso de mostrar resultados mensuráveis, tudo o resto é
desvalorizado”, critica Almerindo Janela Afonso. Transformado num
“operário produtor de resultados”, o professor deixa de ser um educador,
“e se é, porque tem de continuar a ser, esse papel não lhe é
reconhecido”.
Educador, mediador, interlocutor. São atributos
que as Ciências da Educação reservam para o professor. Mariana Ferreira,
30 anos, é capaz de juntar muitos mais predicativos ao seu professor da
Escola Primária da Mealhada, apesar de ter levado com ele o seu
primeiro puxão de orelhas. “Nessa altura os professores tinham mais
liberdade para isso”, reflete. Não recorda se o castigo foi merecido,
mas nunca precisou de levar o segundo. Do professor Manuel Santos
guardou outras memórias.
“Era, porque já faleceu, uma pessoa
espetacular, íntegro, interessado, humilde e exigente.” Mesmo depois de
ter deixado para trás a atividade de docente, continuava interessado nos
progressos escolares de Mariana. “Sei que se sentia orgulhoso do meu
percurso e de ter feito parte dele. Quando fiz o doutoramento ficou
muito feliz!” Hoje, olhando o caminho percorrido na área das
bioquímicas, Mariana está grata ao professor por ter tido “umas boas
bases”. “A exigência dele, o gosto e a vontade com que nos ensinava
faziam-nos gostar da escola. Ele fazia o que fazia por vocação. E isso
nota-se e transmite-se.”
Socialização e instrução Para
Maria João Duarte, 29 anos, ir à escola em criança “era um verdadeiro
pesadelo”. “Fiz o ensino primário num colégio de freiras e os meus
professores primários ainda utilizavam o método de bater quando fazíamos
algo errado.” O receio de dar um passo em falso era constante. E os
professores, marido e mulher, bastante temidos pela turma. Hoje, Maria
João tem outra visão da educação “rígida e católica” desses dias
passados nas “Florinhas do Lar”, no Porto. E não hesita em dizer que
gostaria de ver o filho ser educado com os mesmos valores morais.“O medo
que sentia consigo vê-lo como respeito. Eles [os professores] souberam
educar. Agora sei dar valor e até sou capaz de considerar [a primária] o
melhor período da minha vida escolar.”
As atitudes e gestos que
os professores têm com os alunos são o que muitas vezes fica na memória
dos tempos de escola. “O que nos marca são aspetos de socialização,
mais do que de instrução”, conclui Almerindo Janela Afonso, que nunca
esqueceu o professor de Físico-Química do ensino secundário que o
dispensou da aula sem marcar falta, ao saber que a sua namorada tinha
sido presa pela PIDE nesse dia. Num tempo marcado pela ideologia
dominante do Estado Novo, pequenos sinais faziam grandes diferenças na
imagem do professor. “Tinha-lhe um grande respeito, porque ele lia o
República, um jornal de esquerda.”
Com a democratização da
escola, do pós-25 de Abril, a profissão docente caminha para a
valorização. O aparecimento dos sindicatos de professores, a expansão da
escolaridade, de seis para nove anos, a complexificação da formação
docente, enriquecida com as ciências da educação, a aprovação da Lei de
Bases do Sistema Educativo, e a criação do primeiro Estatuto da Carreira
Docente, que consagra um mínimo de formação superior para dar aulas,
são fatores que contribuem para a afirmação do professor como
profissional.
De missionário a funcionário Almerindo
Janela Afonso identifica três fases na história da carreira docente: a
do professor missionário, marcado pela ideologia do Estado Novo; a do
profissional, fruto da revolução de Abril e, por último, a de
funcionário, como a mais atual. “A ideia do funcionário como aquele que
executa coisas; a do profissional, como aquele que tem autonomia para
fazer escolhas e pô-las em prática, está-se a perder.”
“São
tempos difíceis para a educação”, reconhece Helena Araújo, da Faculdade
de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade do Porto. Cortes
salariais, congelamento da progressão nas carreiras, excesso de turmas e
de trabalho burocrático estão a contribuir para agravar a desmotivação
dos professores.
Sónia Alexandra, 38 anos, conhece bem os
problemas da profissão. Seguiu o sonho de lecionar, contra a vontade do
pai, pelo exemplo de duas professoras da Escola Secundária Aurélia de
Sousa, no Porto. Delfina Martins, professora de Português, e Madalena
Serdoura, que lhe ensinou História do 8.º ao 11.º ano, de quem recorda
“a dedicação, o orgulho em ser professora e a sua humanidade. Estava
sempre preocupada com os seus alunos.” A lecionar em Lisboa, Sónia
Alexandra aproveita a oportunidade para desejar às docentes “um
bem-haja”, caso leiam o artigo.“Devo muito a estas duas senhoras que me
deram pontos de referência para ser uma profissional melhor.”
Com
um extenso trabalho sobre como a Primeira República ignorou as vozes
das mulheres em matérias de educação quando a sua presença na docência
era maioritária no ensino primário, Helena Araújo defende que se ouça
mais a classe.“Os professores têm de ter formas de participação nas
escolas com mais sentido”. Esse será o caminho a seguir para revalorizar
a profissão.