
Nesta época do ano, após o carnaval, é que de fato, nós, professores,
conhecemos todos os nossos alunos. Existe ainda, para algumas famílias, o
hábito antigo de esperar a “semana” do carnaval – que pelo calendário
resume-se a apenas uma terça-feira, para, enfim, mandar os filhos
direito para a escola aqui na Terra Brasilis.
Especialmente, quando o
carnaval acontece em fevereiro. É como se toda a estrutura escolar
funcionando nada significasse – o ano escolar começa mesmo após o
carnaval na mente destes pais desavisados.
Ledo engano, claro.
Não preciso nem dizer. As aulas começam segundo o calendário e quem
falta neste período chega atrasado, pega a matéria no meio, perde
explicações cruciais.
Porém, não posso negar que o mau hábito
persiste e que é agora que eu me ponho a pensar no meu material de
trabalho principal, já que o tenho completo à minha frente – as mentes
que se sentam diariamente nas centenas de carteiras em dezenas de salas
de aula que visito regularmente.
Sempre fico meio saudosista
nesses momentos – lembrando-me dos alunos que já partiram para outras
etapas de suas vidas e que deixaram boas lembranças. Tantos queridos –
João, Gabriel, Igor, Marlon, Flávia, Luana, Maria – ex-alunos, sempre
amigos –, mas cujas carteiras hoje são ocupadas por novos alunos. Outro
João, outro Gabriel, outro Igor, outro Marlon, outra Flávia, outra
Luana, outra Maria. Mas ao mesmo tempo permanecendo insubstituíveis em
suas individualidades.
Essa semana mesmo, conversando com meu
amigo Pedro – não ex-aluno, pelo menos, ainda não –, estava rememorando
excelentes momentos que vivi com estes alunos – e tantos outros. O
troféu de “Malvada Favorita”, as palavras guardadas no coração, os
bilhetinhos enfiados entre as folhas de atividades, os recadinhos
carinhosos nas provas – e não. Não estou falando apenas dos pequenos.
Mesmo os grandes, adolescentes, tomam de seu tempo e criatividade para
me fazerem pequenos agrados que são guardados com muito carinho. Sem
contar os abraços, os beijos, as lembranças que sempre recebo como
prêmios.
Sim. Todo início de ano é para mim momento de recordar o
que passou em um processo que termina apenas agora, após o carnaval – e
com isso, também, reavaliar posturas. É tempo de pensar no que deu
certo, para fazer de novo, e no que deu errado, para buscar novas
estratégias.
A vida do bom professor, ideal que venho perseguindo
ao longo de todo o exercício da minha profissão, é o mesmo do bom
médico, do bom engenheiro, do bom advogado – constante aprimoramento
pelo estudo e pela prática.
Quando iniciei como professora 20
anos atrás, recebíamos alunos diferentes. Os pais mais presentes na vida
de suas crias tinham tempo de ensinar a seus filhos conceitos básicos
de educação e convivência. Hoje, esta lógica não se aplica – muitos pais
não conseguem se dividir entre seus afazeres profissionais e a educação
de seus rebentos (apesar de existirem aqueles que o fazem de maneira
exemplar).
No caso dos que não conseguem, estes relegam todo e
qualquer princípio a ser ensinado pela escola – como se a família nada
representasse no aprendizado de valores. É a verdadeira terceirização da
formação da moral, terceirização esta que só pode acontecer de maneira
imperfeita, já que crianças ensinadas a respeitar os valores básicos de
convivência desde cedo, fazem-no melhor.
Mas da forma como se
processa a formação moral hoje há os que chegam até mesmo à adolescência
sem saber que devem bater à porta, se chegam atrasados, e pedir licença
para entrar, por exemplo. Não sabem que brincadeiras possuem o limite
do bom senso. Desconhecem qualquer medida de hierarquia e respeito.
Ignoram que devem se desculpar quando ofendem e pagar pelo que, mesmo
sem intenção, quebraram.
Já ouvi muitas vezes de colegas
professores: “Não recebo para isto!” – querendo dizer que em seu
salário/papel não está incluso o ato de educar para o bom convívio
social. Eles pensam que o dever primordial para a educação moral é da
família.
E nisto concordo. É mesmo ali que se começa a aprender tais regrinhas básicas.
Mas
quando isto não acontece, professores devem apenas ignorar e cruzar os
braços fechando os olhos, como querem alguns de meus colegas, para
alunos que não sabem sequer o mínimo para viver em sociedade –
demonstrar educação e respeito no trato com o outro?
Nem preciso
dizer que discordo. Do mesmo jeito que o escultor deve trabalhar a
madeira que recebe, nós devemos trabalhar as mentes que recebemos. E se,
não importa a idade, elas ainda precisam ser moldadas para o mínimo da
convivência, que seja. Melhor do que viver reclamando de uma realidade
que, enquanto professor, se é capaz de mudar – mesmo que minimamente.
Emendei estas reflexões na conversa com meu amigo Pedro com outra – sobre o conceito do que vem a ser um bom professor.
Experimente perguntar-se: qual sua definição de bom professor?
Quando
pedidos a definirem, não raro deparar-nos-emos com ideias como: o bom
professor é o que dá muita matéria. O que passa muito dever de casa. É o
temido que mantém o silêncio intacto durante toda a aula. Bons
professores reprovam muito (ou dão muitas recuperações). O bom
professor ensina apenas a sua matéria. Mantém distância dos alunos
evitando qualquer contato externo.
Se estas são definições do que vem a ser bom professor, tenho que dizer que venho falhando copiosamente.
Porque
dentro do cronograma, procuro ministrar o que é suficiente para aquele
dia. Nem a mais, nem a menos – senão as explicações necessárias não
serão dadas e as dúvidas que surgirem não serão esclarecidas.
Também,
assinalo tarefas em quantidade razoável, entendendo que elas servem
para fixação – e que outros professores usam deste recurso. Ou seja, o
aluno não pode ser sobrecarregado de atividades para casa – há que
existir o bom senso.
Mais: prefiro ser respeitada a ser temida.
Temida, em última hipótese, quando a razoabilidade não prevalece – porque para tudo há consequência.
Mas
o respeito é possível na larga maioria dos casos, especialmente, quando
o professor, ciente de que ele é o adulto, e que, portanto, é ele quem
deve dar primeiro o exemplo de respeito e educação estabelecendo limites
claros desde o primeiro dia de aula. (Aqui sempre faço um porém com
meus alunos: ser tratado com educação e respeito não quer dizer nunca
ouvir um “não” ou nunca ser chamado a atenção. Significa que vai ouvir
“não” sempre que necessário; e será chamado a atenção sempre que exceder
o limite – mas, sem ofensas, sem desrespeitos verbais).
Eu
apenas sacramento as recuperações e reprovações necessárias, dadas a si
mesmos pelos próprios alunos. Fica entendido que devem seguir estas
etapas aqueles alunos que falharam no cumprimento de seu papel como
aluno, esgotados todos os recursos pedagógicos possíveis. Sim, porque
alunos também falham – como quaisquer outros seres humanos – e não há
quem me convença do contrário nem quem impute a mim culpas que não me
pertencem.
Enquanto professora, fica claro para meus alunos que
há que haver respeito pela hierarquia – mas isso nunca significará para
mim um abismo que me separe deles. Não raro compartilho com eles
informações pelas redes sociais, outros assistem a ensaios da minha
banda, trocamos e-mails, mensagens etc. Há aqueles que me procuram
também com questões pessoais que gostariam de discutir, sendo sempre
bem-vindos para isto, recebendo opiniões ponderadas, quando cabem, ou
sendo encaminhados para os serviços oferecidos pela escola – psicólogos,
psicopedagógicos – para a assistência necessária.
Assim, tenho
me esforçado sempre para me colocar profissionalmente de uma maneira bem
diferente do que é compreendido, às vezes, pelos próprios professores
como sendo seu papel.
E é exatamente neste momento do ano que
reflito no antes, no agora e no que haverá de ser – buscando sempre
colocar-me dentro de um conceito aprendido na teoria e amadurecido na
prática do que vem a ser boa professora.
E com isto, além de
achar-me hoje satisfeita com os resultados que tenho obtido, ainda
vejo-me pessoalmente satisfeita com as relações duradouras de respeito
mútuo estabelecidas com meus alunos. E ex-alunos. Porque alguns deles
permanecem como amigos para a vida.
Que este ano, portanto, reserve-me a continuidade do que é bom e a sabedoria para perceber o que não é – dentro e fora de sala.
Que assim seja.
Érica Araújo e Castro - Articulista Estadoatual
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