Carlos Méro, escritor e presidente da Academia Alagoana de Letras,
mestre na língua francesa, apresenta para uma seleta plateia francesa a
essência e forma do poema de Jorge de Lima.
1. COMEÇOS: O RUMO DA CONVERSA
A representação poética do negro em terras brasileiras, a contar da
infância da Colônia e até meados do Século XX, quase que só era visível
pela voz do homem branco, ressalvadas as presenças pontuais, embora
negligenciadas e quase ignoradas por seus contemporâneos, de poetas
afro-descendentes da estatura de Caldas Barbosa (1739/1800), Maria
Firmina dos Reis (1825/1917), Luiz Gama (1830/1883) e Cruz e Souza
(1861/1898), entre outros tantos.
E a cada momento uma inclinação determinada.
De princípio (isso ao correr do Século XVII) foram ouvidos os versos
depreciativos e mesmo ultrajantes (“ muitos mulatos
desavergonhados/trazidos pelos pés os homens nobres”) de Gregório de
Matos (1636 – 1696. Depois, já ao correr da centúria seguinte, aqueles
epicizantes de Santa Rita Durão (1722 – 1784) e de Basílio da Gama (1740
– 1795), porém a só cuidarem dos negros enquanto combatentes ao lado
dos brancos e a defenderem os interesses do Trono Lusitano: Durão, em
Caramuru, a louvar Henrique Dias, herói da Guerra Holandesa em
Pernambuco; Gama, em Quitúbia, a celebrar Domingos Ferreira da Assunção,
notabilizado durante a Guerra Preta.
Mais tarde, já no século XIX, chegou a vez de Gonçalves de Magalhães
(1811 – 1882) e de Castro Alves (1847 – 1871), ambos apiedados dos
negros, ao sopro do romantismo, diante das feridas neles abertas pelos
ferrões da extradição, do exílio e da opressão: Magalhães enternecido,
afetuoso e contido; Castro Alves, o condoreiro, arrebatado, combativo e
grandiloquente.
Com Jorge de Lima (1893-1953), então, uma singular mudança de rumos,
ainda que se queira admitir que se mostrava ele vulnerável ao bafio da
casa-grande, logo à perspectiva espezinhadora do colonizador, ao menos
em parte da sua obra.
É o caso, a propósito, do seu poema “Essa Negra Fulô” (LIMA, 1997:255),
pela primeira vez publicado pela editora Casa Trigueiros, em Maceió, no
ano de 1928, quando, depois de andejar pelo parnasianismo adotou ele o
modernismo, meio do caminho até mais tarde aderir ao surrealismo, aliás
com ressonâncias proustianas.
Pois é justo contra a representação ali trazida da mulher negra, até por
entendê-la enxergada por Lima com olhos cristãos e em tudo e por tudo
alheios à negritude, que Oliveira Silveira (1941-2009), também vate
brasileiro, porém afro-descendente, contemporâneo e cognominado Poeta da
Consciência Negra, compôs, em um exercício de explícita
intertextualidade, o poema “A Outra Nega Fulô” (SILVEIRA, 2008:110).
Estariam ambos a cuidar da mesma mucama imaginária?
Até que ponto, por conseguinte, na verdade se distanciam ou
verdadeiramente se conflitam os seus olhares poéticos, no que diz com a
representação da mulher negra?
Seria suspeitosa a representação tecida por Lima, pois que a falar como
branco, logo como integrante de estamento social de elite, ou ambas, já
que a visão identitária de Silveira poderia estar infectada por seu
comprometimento étnico?
É o que ora se pretende decifrar.
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2. O AFRO-BRASILEIRO NA LÍRICA DE JORGE DE LIMA
Jorge Mateus de Lima, pelo que dele dizem os seus biógrafos, era neto de
um Senhor de Engenho, tendo eclodido a sua vocação poética ainda miúdo,
quando, um certo dia, fora levado a visitar a Serra da Barriga, cenário
em que surgiu, ensaiou progredir e foi finalmente esmagado o Quilombo
dos Palmares.
Demais disso, embora nascido após a abolição da escravatura (já que esta
acontecera em maio de 1888), Jorge conheceu a infância sob os zelos e
os mimos de Celidônia, de quem diria, em “Ancila Negra” (LIMA,
1997:305), “linda moleca ioruba”. Ela que, entre tantos outros negros e
negras legalmente libertados, não se sentiam encorajados para ganhar a
estrada e procurar nova vida, eis que a não divisarem meios e
perspectivas que lhes assegurassem as próprias sobrevivências. E era bem
por isso que se resignavam a permanecer dependentes dos seus antigos
senhores e portanto a servi-los, por vezes em vexatória condição de
atípico porém quase igualmente degradante cativeiro.
Era então Celidônia quem o banhava, quem o vestia, quem o cobria de
dengos, quem o fazia dormir com histórias de bichos e de reinos remotos,
quem o pajeava nas suas idas e vindas entre a casa e a escola, quem o
acariciava, quem o consolava, quem o beijava com seus lábios roxos, quem
talvez o iniciava em prematuras vadiações sexuais. E em se dando que
ela um dia se afogou no Rio Mundaú, sem ter avisado ao poeta que
escolhera morrer, confessa ele, ainda em “Ancila Negra”, que o teria
deixado:
[...] parado em pequeno,
mandigando e dormindo,
muito dormindo mesmo.
Mas o fato é que a imagem dela ficou a tal ponto grudada na sua memória
que, segundo depoimento de José Fernando Carneiro, inundava-lhe as
costumeiras e caladas noites de insônia, estando o seu nome, mais tarde,
constantemente em sua boca, quando já estava ele cumprir os seus
derradeiros dias de vida. (apud ILARI, 1991:8).
Não seria de surpreender, por conseguinte, que seu universo lírico (já
homem feito) estivesse contagiado pelas tardias, é certo, contudo por
ele de feito vivenciadas reminiscências da casa-grande e da senzala.
Por isso mesmo, segundo algumas leituras do seu poema “Essa Negra Fulô”
(e aqui o termo Fulô revela corruptela prosódica do vocábulo Flor),
teria pesado sobre Lima, enquanto a compô-lo, a nódoa de se denunciar
impregnado, ainda que não deliberadamente, pela ótica preconceituosa que
ressoava desde as sombras da escravidão. Visão, enfim, como que
saudosista dos abusos do relho, do tronco, da máscara de folhas de
flandres e da cativa objeto sexual, o que remetia a uma consciência do
negro como elemento exótico, inferior e até mesmo pitoresco.
Mas em meio a tudo isso (há ainda quem ressalte) uma vigorosa fixação
derramada sobre o corpo sensual e as promessas eróticas das mulheres
negras. Talvez, convenha-se, brotada de sua suspeitosa convivência com
Celidônia, “anjo negro degradado para sempre”, cuja ausência apagou “os
signos do regresso”, enquanto que “tudo ficou como um sino ressoando”,
segundo também suspira em “Ancila Negra”.
Certamente, porém, herdada dos dias das suas escapadas, ainda na
meninice, no rumo das margens do mesmo Rio Mundaú em que ela se afogara,
onde se punha Lima a furtivamente se deliciar na contemplação do corpo
ebâneo de “Zefa Lavadeira” (LIMA, 1997:301).
Aquela “Zefa Lavadeira” que, enquanto lavava cada peça da trouxa de
roupa, arrojando os panos contra a pedra de bater, nem se dava conta de
que lá estava ele, estático, sem dar um pio sequer, com os olhos presos
nas suas axilas que se cobriam e se descobriam, “piscando a tentação de
arrochos e rendições cheias de saciedade” (op.cit.1997).
Logo depois, então, o deslumbramento, quando “Zefa Lavadeira”, em se
acreditando só, “ia despindo as belezas selvagens de ninfa cafuza” e
assim expondo o seu corpo “só vestido do manto de pele negra com que
nascera”(idem,ibidem).
Mas também, pelo que se vê no mesmo poema, havia um mundo de “outras
negras”, com seus “seios pontudos” e suas “nádegas rijas”, as mãos
côncavas na espera da espuma de sabão que se despenhava entre os peitos e
escorria pelo ventre até as coxas, de onde era suavemente transportada
aos segredos dos “sexos em que a África parece dormir o sono temeroso de
Cam”.
Mais tarde, reconheça-se, Jorge de Lima se reinventaria, reinventando a
representação do afro-brasileiro, até empurrado por uma mentalidade
inovadora inaugurada pelos seguidores da escola modernista e escritores
canônicos, esta a ter na mira o testemunho da contribuição da negritude
para a edificação da identidade brasileira, o que se expõe indispensável
para que se promova a internalização, pelo negro, da noção de
pertencimento cultural.Perspectiva, aliás, que já vinha contagiando a
música de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e as criações pictóricas de Di
Cavalcanti (1897-1976) e de Tarsila do Amaral (1886-1973).
E foi então, com as composições reunidas na coletânea Poemas Negros, que
só viria a ser publicada em 1947, que definitivamente surgiu o Lima
contritamente comprometido com o negro e com as suas tradições, crenças e
superstições, costumes e meizinhas, falares e mandingas, temperos e
iguarias, com os seus fetiches e os seus desencantos, no que procuraria,
agora sim, verdadeiramente resgatar a então banalizada cultura negra.
Mas isso é coisa que veio depois da Negra Fulô, pelo que não vale a pena agora considerar.
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3. A LIMIANA NÊGA FULÔ
A Negra Fulô do poema de Jorge de Lima, ao ficticiamente chegar ao
banguê de um seu avô, é só por só por ele enxergada qual insignificante
“negra bonitinha”, como se não mais fosse que um objeto de adorno ou de
utilidade doméstica (logo coisificada e portanto despersonalizada), que
era trazido para decorar o cenário da casa-grande e para satisfazer a
cada um dos caprichos do Sinhô, da Sinhá, dos Sinhozinhos e das
Sinhazinhas.
Por isso mesmo, já a seguir a notícia da sua serventia e da sua
servitude, quando forra a cama da Sinhá, quando lhe penteia os cabelos,
quando a ajuda a trocar de roupa, quando abana o seu corpo sempre que
ela sente calor, quando lhe coça as coceiras, quando lhe cata cafunés,
quando lhe balança a rede e até lhe conta histórias da carochinha (ou
não) a cada vez que bate nela aquela vontade danada de pegar no sono.
Isso para não falar do engomar e do alisar com ferro quente as roupas do
Sinhô, bem como, a cada boca da noite, do tanger as crianças para a
cama e fazê-las dormir, deveres suplementares que também eram sacudidos
nos costados de Fulô.
É quando se dá conta a Sinhá de que sumiu um seu frasco de cheiro, um
daqueles que lhe foram presenteados pelo Sinhô, pelo que de pronto
intuiu ela que fora Fulô quem o roubara, apressando-se em ordenar que o
feitor a chicoteasse. E o Sinhô, sensível ao angustiante sentimento de
perda da Sinhá e talvez sinceramente indignado, foi ele mesmo presenciar
a encenação do castigo. Só que ficou de boca aberta, estatelado, quando
assistiu surpreso à inteira e fascinante nudez da mucama.
Um outro dia, logo não muito mais tarde, já deu a Sinhá pelo
desaparecimento de um lenço de rendas, de um cinto, de um broche e de um
terço de ouro da Virgem Maria, também agrados igualmente vindos do
carinho, da generosidade ou das engabelações do Sinhô.
Novamente, então, a culpa presumida e a sumária condenação de Fulô ao
espancamento. Agora, porém, decidiu-se o próprio Sinhô a aplicar, ele
pessoalmente, o degradante corretivo na cativa, por certo já antevendo,
cobiçosamente, o quando o resto do mundo seria encoberto por suas curvas
voluptuosas.
Foi quando aconteceu o que seria de se esperar...
Ao ver Fulô, outra vez, desvestir-se do cabeção e da saia, encolhendo-se
nua como veio ao mundo, o Sinhô sentiu o fogo que lhe esbraseou as
entranhas, perdeu o juízo, azuniu a chibata, agarrou a mucama e, quanto
ao resto, nem é preciso que agora se diga. Só haveria de dar, como deu,
no choroso lamento de uma Sinhá ferida e enciumada:
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
E logo:
Ah! foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?
Um poema, pois, segundo a apreciação de alguns, em que Jorge de Lima se
valera de um olhar lírico sentado em estereótipos pejorativos enraizados
na etnia e na sexualidade, pois que a enxergar a negra como gatuna,
lúbrica, maliciosa, matreira e subserviente, isto é, segundo a receita
do homem branco, assim como ditada pelos ecos da escravidão.
Não bastasse, no que até fugiria à contextualidade, a fazer parecer que
fora ela a manhosamente seduzir o Sinhô (ao ponto de roubá-lo da Sinhá) e
não de que fora o Sinhô, de relho na mão, a lhe impor a submissão aos
seus impulsos libidinosos.
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4. A SILVEIRIANA OUTRA NEGA FULÔ
Tomando-se, agora, o poema “A Outra Nêga Fulô”, obra do afro-descendente
Oliveira Silveira, mais do que diversa é a representação que se
surpreende da mulher negra, estando mesmo a conter, no particular,
indissimulável contra-discurso.
O que é evidenciado, aliás, quando já inegavelmente se debruça Silveira
sobre a mesma Negra Fulô, fruto da criação lírica de Jorge de Lima,
embora prefira nomeá-la Nêga Fulô, no que, sincopando o primeiro termo,
propositalmente abraça a pronúncia popular e corrompida da palavra
Negra.
E é isso tanto verdadeiro que, se de começo a aponta como a outra Nega
Fulô, mais do que ligeiro se arrepende para admitir seja a mesma:
O sinhô foi açoitar
a outra nêga Fulô
- ou será que era a mesma?
Aliás, até assume Silveira postura desafiadora e provocativa quando, no
corpo da composição e através da voz que empresta ao Pai João, não só
assevera que vem aquela releitura “prá escândalo do bom Jorge”, como a
este alfineta ao qualificá-lo como “seminegro e cristão”.
O que vem a dizer que o denuncia desautorizado a falar sobre a negritude
e muito menos em nome dela, pois que além de a ela não pertencer (seja
pela pele, seja pela idoneidade do sangue, seja pelas tradições), ainda
por cima é cristão, logo do mesmo universo daqueles que, por séculos a
fio, vilmente apresaram, maltrataram, escravizaram e oprimiram a gente
africana, chegando ao desvario de lhe negar a humanidade.
Tenha ou não tenha razão Silveira quanto a este ponto, ou esteja a ser
empurrado por arroubo xenófilo, compreensivelmente plantado em sua
ancestralidade, a verdade é que ostensivamente opósito é o perfil que
traça da mesma mucama, eis que ao reescrevê-la, por sobre a criação de
Lima, finda por mitificá-la.
Para Silveira foi sim o Sinhô açoitar a mucama, instigado, é certo, pelo
temerário veredito da Sinhá, embora cale o poeta sobre as más intenções
que já poderiam estar a provocá-lo, visto que era comum ser desnudada a
cativa a ser surrada.
Também não nega o poeta que, como era de se esperar:
A negra tirou a saia
a blusa e se pelou.
E nem mesmo que:
O Sinhô ficou tarado
Largou o relho e se engraçou.
Só que é ela bem diferente da limiana Negra Fulô, pois que altiva e não
servil, voluntariosa e não subserviente, senhora do seu corpo e não
objeto benevolamente entregue aos apetites libidinosos do Sinhô,
decidida em suas escolhas e não sufocada por acovardada indulgência.
E sendo mulher, enfim, mulher negra consciente da sua humanidade,
bravamente repeliu o estuprador, aproveitou-se de um pedaço de pau que
estava por perto e o espancou até quando ele finalmente se extinguiu.
E mais tarde a angústia da Sinhá:
- Fulô! Fulô! Ó Fulô!
A Sinhá burra e besta perguntava
onde é que tava o sinhô
que o diabo lhe mandou.
- Ah, foi você que matou!
A Sinhá, pois, aqui desprovida de discernimento e comparada a burras e
bestas, no que animalizada tal qual os brancos animalizavam os negros,
enquanto que o Sinhô, seu marido, já não é dádiva de Deus, mas sim obra
das artes do diabo em pessoa, pois que só assim, aos olhos do poeta,
para que lhe fossem justificadas a arrogância, a depravação e a
crueldade.
Foi quando Fulô, que já havia tomado rumo incerto e não sabido, escutou à
distância a irada e ao mesmo tempo lacrimosa e condenatória
interpelação da Sinhá. E de pronto acintosamente confirmou:
- É sim, fui eu que matou –
disse bem longe Fulô [...]
E tendo assim confirmado o crime ao negro retinto que com ela escapava, foi com ele se acasalar no meio da mata.
Só não há notícia de que se tenham encantado de vez no meio do mundo,
sem que nunca mais fossem encontrados. Sim, pois que também possível que
Fulô e o negro escolhido e que lhe assanhava os desejos, mais cedo ou
mais tarde, tenham sido apresados por algum Capitão do Mato, amarrados
na ponta de alguma corda, como se fossem bichos, arrastados de volta ao
banguê e ali (quem sabe?) muito mais do que só brutalmente espancados.
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5. O QUE SE TEM PARA ARREMATAR
Dois olhares poéticos, pois, mais do que antagônicos: o de Lima a
revelar uma negra bela, oprimida, sedutora, subserviente e esperta,
porém talvez resignada ao aviltante papel de objeto sexual e assim a
tolerar ser tratada sem nenhum apreço à sua dignidade humana; o de
Silveira a espelhar uma negra igualmente exuberante, contudo briosa,
firme e impetuosa, senhora do seu corpo, das suas vontades e das suas
escolhas, logo cônscia dos seus valores como ser humano.
Mas não é difícil de adivinhar que ambos de alguma forma contagiados por
projeções simbólicas comprometidas: Jorge de Lima, pois que a dizer
segundo o sentimento do universo branco, logo reveladamente eivado,
ainda que não o quisesse o poeta, de herdado preconceito que ainda hoje
persiste, daí provindo a generalização caricatural que pode alguém ver
sugerida em seu poema; Oliveira Silveira, por sua vez, visto que
empurrado por aceso orgulho de pertencimento à gente negra, além do que
tocado por justificado ressentimento, disso advindo a intencionalmente
contraposta sobrestimação da mucama e a desdenhosa e estigmatizante
representação da mulher e do homem brancos.
No final das contas, a evidência do quão ficta permanece a propalada
democracia racial brasileira, sendo palpável a discriminação ainda
sofrida pelos afro-descendentes, se bem que a cada vez mais tímida e
convenientemente velada, ao tempo em que quase sempre socorrida por
cínica hipocrisia.
Cenário de aparências, por sinal, que já em 1952 era delatado por Jorge
de Lima, no ventre do seu poema Castro Alves – Vidinha (LIMA, 1997:803),
composto ao modo das cantorias dos trovadores do nordeste do Brasil,
onde instiga:
[...] ó caboclo do sertão,
o cativeiro de hoje
é o mesmo: cana e algodão.
O mesmo Jorge de Lima que, convicto da edificação compartilhada da
identidade brasileira, pergunta ao Brasil em “Fui mudando, mudando”
(JORGE, 1997: 251):
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou seu novo ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
E não se dá diferentemente com Oliveira Silveira, quando, em seu poema
“Ser ou não ser” (SILVEIRA, 2008:108), indignado com a discriminação
persistente, apesar da incontroversa contribuição negra para a formação
da cultura brasileira, desafiadoramente indaga:
O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?
* Palestra proferida na Maison de Recherches da Universidade de Toulouse
II - Le Mirail, no dia 8 de fevereiro de 2013, durante a Journée
d’Etudes “Les Ameriques Noires: Identités et Représentations”, promovida
pelo Institut de Recherches et d’Etudes Culturelles (IRIEC), com a
colaboração do Institut Pluridisciplinaire pour les Etudes sur les
Amériques à Toulouse (IPEAT)
Fonte: Gazeta de Alagoas